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Viagens

Conhecendo a Muralla Roja

17 de maio de 2017

Esse post é de uma importância sem tamanho pra mim. Primeiro, porque são fotos que eu queria fazer há um tempo, um ou dois anos, desde que conheci esse prédio maravilhoso pelo Instagram. Segundo, porque foi uma experiência rica e diferente de tudo o que eu imaginava – foi a primeira vez que viajei sozinha pra outro país e não conseguia nem visualizar o que seria disso.

Pra começar, o prédio e a cidade. A Muralla Roja é um edifício residencial projetado pelo arquiteto catalão Ricardo Bofill e inaugurado na década de 1970. Fica na cidade de Calpe, uma cidade balneário recheada de russos, ingleses e alemães que se aposentam e descem o continente procurando  um pouco de calor.

O prédio é um complexo de pátios interligados por escadas. São vários andares que começam e terminam sem aviso, entre escadas complexas, e os elevadores parecem estar há anos fora de serviço. Demorei algumas horas pra descobrir como chegar à piscina, que fica no último andar – afinal, não era só ir pra cima: era subir na escada certa e virar em um lugar específico antes de subir todos os andares. No começo, achei a situação meio constrangedora, mas tava bem sozinha no prédio e a procura ficou divertida.

Cada parte é de uma cor diferente: tem rosa-bebê, salmão, vermelho, azul e um tom roxo-rosado. É lindo explorar o prédio e ver como as cores se compõem no espaço. É quando você sobe tudo que encontra pontos com as melhores visões: tem o mar, BEM AZUL, as casas do entorno, a pedra característica da cidade, que fica no mar perto do centro da cidade, o prédio vizinho, que é do mesmo arquiteto e se chama Xanadu, e os contrastes de cor da própria Muralla.

Aluguei esse apartamento pelo Booking e fiquei no próprio prédio, porque não tinha entendido muito bem se poderia fotografar lá dentro. Não podia, sem ser morador – a não ser que você escapasse das garras do Juan, que controla quem acessa o prédio e organiza os infinitos shootings que acontecem por lá fora de temporada.

E o cara deu uma boa dor de cabeça pra gente. Foram três dias explorando o prédio e fotografando. Até a metade do segundo dia, sozinha, fazendo fotos da arquitetura e descobrindo como a posição do sol era importante pra conseguir fotos do jeito que eu esperava depois de tanto ver o prédio pela internet. Tarde, melhor horário pra piscina, porque o sol vem pela direita e marca o desenho do prédio criando o volume certo. Amanhecer e anoitecer, melhor horário pras escadas, porque o sol não vaza entre os vãos e não cria variações de luz.

E como a luz era importante. Lembro de ter passado anos tentando entender as cores das fotos do Luigi Ghirri, fotógrafo italiano que viveu até a década de 1990 e ficou conhecido por ser uns dos primeiros a trazer o estatuto de arte pras películas coloridas, numa época em que a fotografia a cores era considerada coisa pra se usar em casa, de forma amadora. Se tem uma coisa que não é amadora são as cores desse cara, as texturas e a forma como a luz incide nas pessoas e objetos.

E foi essa luz que encontrei na Espanha. Acho que é uma luz mediterrânea. É diferente, é chapada e é dessaturada, mas daquele dessaturado leve que ajuda as cores a saltarem aos olhos. Saí clicando a cidade e as pessoas, num misto de medo de ser pega com o desejo de registrar e compartilhar as coisas que eu via ali e nunca havia visto antes. Considero as cores que saíram desse primeiro dia de foto bem únicas, esse céu azul intenso que se mostra e dá vida às fotos apesar do sol forte que havia no dia.

Enfim, dá pra dizer que o primeiro dia foi perfeito pra fotografar, mas Duda ainda não tinha chegado e eu não tinha como fazer as fotos de produto. No segundo dia, chega Duda e a gente começa a produzir conteúdo pros nossos clientes. Lá vem Juan, falando um espanhol nervoso, perguntando se a gente não sabia ler a placa da entrada que proibia o acesso de estranhos. A gente explicou que tava hospedada lá e lá veio a bomba: a gente não podia fotografar no prédio porque tinha gente pagando por isso e era um problema usar câmera reflex. E não podia usar a piscina. Um misto de “meu, como fui burra de não checar” com “esse cara só pode estar tirando com a nossa cara”.

Os dias seguintes foram um misto de ansiedade e fotos escondidas, mas depois de uma ligação pra imobiliária, um flagra e alguns constrangimentos, a gente conseguiu. Fizemos as fotos. E a nossa sorte é que essa imobiliária Interhome, que é uma empresa suíça, tem funcionários comprometidos que ajudaram a gente do começo ao fim.

E algumas notas mentais:

– chegar no prédio com uma colinha que a Interhome montou pros visitantes conseguirem entender como chegar ao apartamento, com fotos, setas e textos explicativos. Eu esperava um prédio maior e mais plástico, mas a verdade é que a Muralla não parece passar por uma manutenção forte há anos. Tem remendos por toda parte, no chão e nas paredes, e as antenas estragam um pouco a sua foto lúdica perfeita. De qualquer maneira, o queixo cai a cada virada que você dá nas escadas. E saí com a sensação de que não descobri todo o espaço, apesar dos três dias de exploração.

– a Cala La Manzanera, como eles chamam essa enseada, contava com um bar de frente pra praia, descendo uma escada. A gente viu fotos do prédio e acreditou que encontraria ele inteiro e funcional. Qual não foi a surpresa quando chegamos e encontramos ruínas, que fizeram com que a gente entendesse que as fotos eram da década de 70. Era bonito, ainda assim, com pixos poéticos e uma simetria que resistiu à ação do tempo e do mar.

– a Muralla tem temporada, como toda casa de praia. A gente pegou a baixa, que é quando acontecem a maior parte dos shootings profissionais do espaço. O que a gente ouviu é que, durante o verão, os apartamentos voltam à vida e a piscina fica cheia, como em qualquer prédio de litoral.

As fotos que fiz por ali também foram publicadas pela internet. Você encontra no The Summer Hunter (aqui e aqui) e na Casa Vogue.

  • K.

    o tanto que eu amei esse post, texto, fotos, cores, formas, lugar. já quero muito conhecer <3 e nunca pare de postar aqui pfvr (mas pode sumir um pouquinho quando precisar, todo mundo precisa as vezes)

  • Acho que eu estou aqui lendo esse post já há umas duas horas, porque não consigo parar de olhar e contemplar a beleza dessas fotos!! Estou impressionada como um lugar desses existe!! Não conhecia o local, acompanhei tudo pelo seu instagram e já entrou na minha lista de lugares para ir antes de morrer 🙂 Obrigada por me apresentar essa maravilha!!!

  • fotografia maravilhosa, como sempre.
    assim como é sempre uma novidade, mesmo que as cores sejam as mesma ♥ adoro isso no teu trabalho 🙂

    e seja lá sobre o que você for falar, adoro vir aqui ler 🙂