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Viagens

Curitiba: Dia 01

20 de julho de 2017

O dia pra lembrar como viajar sozinha pode ser uma experiência mais intensa do que viajar acompanhando.

chão de nuvens do vôo de hoje

Cheguei em Curitiba hoje por volta das 9 da manhã. Já fazia bastante frio em São Paulo quando acordei às 6 pra ir ao aeroporto, mas a expectativa era encontrar temperaturas tão cruéis quanto 1ºC chegando na cidade. Eu queria trazer muito pouca mala mesmo, depois do trauma que foi voltar com duas malas gigantes (e cheias de livros) de Berlim. Pensei em ficar só com a câmera e uma lente, e uma mala de mão com todas as roupas, sapatos e coisas pro banho.

A previsão do tempo foi uma das coisas que me deixaram insegura de não levar duas malas separadas, porque todo casaco é pouco nessa friaca de julho. A outra coisa foi: fechei um job, e dias depois me apareceu esse vídeo da Julia Trotti demonstrando como ela empacota o equipamento fotográfico pra viajar. É muita coisa mesmo, muito mais que o meu, e levando numa mala pequena de rodinhas o peso quase que se dissipa. Pensei: por que tô me boicotando tanto?

Comprei a franquia de bagagem e sim: as dicas dela são ótimas.

vista

Os objetivos hoje eram simples: dar entrada no Airbnb, comprar comida e algumas coisas que não vieram na mala e uma consulta na nutricionista, motivo inicial da viagem. Fiquei um pouco receosa de chamar Uber sem saber como estava a situação do app na cidade e cometi aquele erro que não sabia ser erro: peguei um táxi do aeroporto pro centro da cidade e paguei R$ 70, ainda porque o motorista ficou com pena e me deu um pouco de desconto pela viagem.

Por outro lado: escutei uma das histórias mais surpreendentes da minha vida, que era a história de vida dele, e fiquei surpresa de já chegar conversando com uma pessoa tão carinhosa e disposta a conectar logo que cheguei na cidade. Apesar do frio na barriga, o olho escorregando a todo tempo pro taxímetro que não parava de subir, veio aquele calorzinho no peito e uma vontade disfarçada de explodir de amor enquanto ele me explicava por que tinha 7 filhos e como foi que encontrou o amor da vida dele. Viúvo, 33 anos e 3 filhos, contratou uma mulher pra cuidar das crianças enquanto trabalhava, sendo que ela mesmo tinha um filho recém-nascido que não tinha como cuidar. E, dois anos depois, com os filhos dele chamando ela de mãe e o filho dela chamando ele de pai, resolveram tentar namorar. Daí, mais três décadas e mais três crianças. É muito amor.

Depois da consulta, outro encontro inesperado: me perdi procurando um café e fui parar num Instituto Goethe. Pensando no de São Paulo, que tinha um café num espaço bonito, entrei e pedi a primeira qualquer coisa que veio à cabeça pra uma mulher mais velha, com traços claramente germânicos e um pouco de sotaque no L. Sentei no balcão pra tomar o chá e ali fiquei mais de uma hora, porque a gente começou a conversar e se empolgou. Ela me falou do fundo da escola, onde fiz as fotos, e se despediu de um jeito caloroso apertando minha mão e desejando coisas boas.

O que eu curto nesse processo de viajar sozinha é ter esse tempo inevitavelmente dedicado às pessoas e coisas que aparecem de surpresa no caminho. Talvez soe um pouco besta colocar isso em questão, mas é que eu sempre tive muita dificuldade de fazer qualquer coisa sem estar acompanhada. Por carência, por ser mulher, por ser de uma cidade muito pequena e ter receio das coisas, mas enfim: por motivos que não são necessariamente o que eu quero ser. Descobrir então uma capacidade de estar no meu ritmo em tempo integral é gratificante, é um processo de empoderamento que exige controlar ansiedade e às vezes lidar com sintomas de somatização que nem dá pra descrever.

Essa pessoa que vos escreve de baixo de 5 cobertas pretende voltar todos os dias da viagem e trazer um pouco do que rolou. Hoje me dei férias da câmera e fiquei só no celular, mas pras próximas espero ter mais material.  Um beijo procês.

  • Que bom que você compartilhou essa experiência aqui com quem lê e com você mesma que vai ler no futuro e lembrar desse momento, dessa superação.

  • K.

    que amorzinho de diário de viagem ♥️

  • yuri s

    um post de viagem bem diferente dos que estou acostumado a ver, e por isso amei bastante! haha me identifiquei total com as ~pequenas~ coisinhas que você relatou, eu tbm presto muita atenção nesse tipo de coisa, e também sempre tive dificuldade de fazer coisas desacompanhado :/

    http://www.sextadimensao.com/