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Dia-a-dia

Várias visões de nu

28 de agosto de 2017

O nu foi um elemento que demorou pra entrar na minha fotografia. Pra mim, sempre um desconforto. Já era desconforto ter de lidar com o outro na situação da foto, dirigir e ser presente e compartilhar um pouco do que eu tava vendo pra fazer a outra pessoa se sentir segura e confiante em relação ao trabalho, e seria ainda mais desconfortável se essa situação toda tivesse o peso da nudez no ambiente.

© Charllote Hills & Mark Sanders

Meu primeiro ensaio nu foi um dos meus primeiros ensaios. Era pra uma matéria de fotografia digital que tive na faculdade – um dos maiores motivos que me levaram a fotografar hoje – e o tema do trabalho seria escolher um artista como inspiração de um ensaio. Fui meio ousada, escolhi uma fotógrafa que me inspirava bastante na época, que era Francesca Woodman. Não me lembro como conheci Francesca, mas acredito ter sido por indicação de uma amiga no meio da adolescência. Uma fotógrafa estadunidense que produziu basicamente tudo na faixa dos 20 anos, enquanto cursava Artes, e se matou aos 22, deixando um trabalho tão consistente que até hoje é tema de exposições pelo mundo.

© Francesca Woodman

Foi também minha primeira frustração por não compreender a relação entre identificar os elementos importantes de uma foto (olhar), planejar minha própria foto (prever) conforme esses elementos e colocar isso em prática (agir). Lembro de olhar pelo visor da câmera e não conseguir capturar nada parecido com Francesca, no que a própria modelo, que era uma conhecida da minha cidade natal, me disse que nada ficaria parecido mesmo porque ela não tinha o corpo adequado pra foto. O corpo dela era incrível, mas não parecia com o corpo da própria Francesca, que se retratava na maior parte das imagens: Francesca era magra, esguia, com peitos e bunda pequenos, enquanto minha modelo era baixa, com peitos e bunda grandes e marca de sol. Colocando as duas na mesma situação, a sexualização dos dois corpos ia por caminhos completamente diferentes.

© Prue Stent

Depois disso, coisas que aconteciam vez ou outra: as próprias meninas que eu fotografava guiavam o ensaio de forma que, em algum momento, sem me explicarem que era exatamente o que queriam, tiravam a roupa e pediam pra ser fotografadas de forma sensual. Era sempre um desconforto, em parte por me sentir em poder de algo maior do que gostaria de estar, que era a nudez delas, e em outra parte porque essas fotos eram sempre cortadas da publicação final.

Nunca foi meu interesse, o nu. De alguma forma, sinto que muita gente transforma essa opção de não vestir os modelos em isca pra atrair atenção em rede social. É também a ferramenta que os fotógrafos homens encontram para continuar dominando o corpo feminino – esses que se intitulam “fotógrafo de nu”, mas que nu é esse que só contempla corpos de mulher? Sob olhar sexualizado, mecânico e repetitivo, associado a discursos feministas criados por eles mesmos, que só servem pra tapar o sol com a peneira.

O nu foi chegando no meu trabalho pelas portas do fundo, associado a ideias que eu queria passar e que me obrigavam a enfrentar todo o constrangimento das situações para ver a ideia viver. Conversando com amigos e dividindo visões, fui percebendo como a pele me interessava enquanto tema, cor e textura – e a busca pela pele me fez percorrer os caminhos dos corpos até voltar pra ela mesma, pra fotografia de nu.

Autorretrato – Fevereiro de 2016

O sexo e a nudez e todo o universo conceitual e imagético que se encontra em torno disso vão ser temas interessantes enquanto considerados tabus, e nenhum problema nisso. Acho muito natural o sexo enquanto tema ou até mesmo a busca pela sexualização das modelos durante o processo da produção das imagens, ainda que feito por homens usando mulheres como suporte.

Mas também acho importante analisar, reconhecer e expor as relações de poder que se estabelecem nos entremeios desse processo de criação porque, sim, essas relações existem. Não é um discurso feminista na legenda ou o fato de que muitas mulheres pagam ou se humilham para ser fotografadas por caras mal-intencionados que anula o fato de que essa fotografia ser mais uma exploração de mulheres. Ao mesmo tempo em que um trabalho demonstrar sexo explícito não o torna, automaticamente, uma relação de exploração entre artista e retratado.

© Bennie Julian Gay

  • Amei esse post. Amo ‘fotografia de nu’ e morro de vontade de fazer, mas ainda não sei muito bem como começar e como lidar com esses constrangimentos e tudo o mais.
    Uma das minhas maiores militancias atualmente é sobre o empoderamento da mulher através da fotografia e sempre bato na tecla de que muitos homens são muito escrotos e usam esse discurso pra fazer exatamente o contrario.
    Amei esse post demais, as fotos estão incríveis e a reflexão mais ainda!
    Beijos,
    A Menina da Janela

    • Laura!!! Acho que o segredo de como começar e lidar com os constragimentos é simplesmente começar. Os constrangimentos vão vir sim, e deixa eles vir, dá uma pirada com tudo…

  • Naira, do céu!! Como me identifiquei contigo!! Tenho a mesma relação com o nu que você descreve no começo do texto e tenho buscado na fotografia uma forma de entender melhor essa dificuldade e minha relação com o outro quando, também, fotografo nessas situações!! Adorei o texto e que autorretrato maravilhoso!! <3

    • Lembro da nossa conversa sobre timidez e sobre a paranoia de se importar tanto com a forma como as outras pessoas nos vêem a ponto de travarmos. Por conta disso, provável que fotografar alguém numa situação que a gente já imagina ser desconfortável pro outro se transforma numa possibilidade quase impossível, né. Mas uma coisa que eu tenho feito nesse contexto é fingir que eu tô confortável, até, de fato, ficar, hahaha. Um beijo nocê.

  • Fellipe Sousa Lopes Antunes

    Desculpe-me, mas senti-me ofendido com o texto. Primeiro que o titulo é enganoso, ao invés de “Várias visões de nu” deveria ser “Como me sinto insegura em fotografar nu”. Isso é importante porque ao clicar no link, eu buscava por referências e não saber como você se sente desconfortável ao fazer esse tipo de ensaio. Mas passou a ser pessoal quando você fez a crítica a fotógrafos homens de nu.Sei que há vários que mancham nossa imagem, mas não são maioria e fica a cargo da própria modelo buscar referências sobre ele. Tenho e sempre tive cuidados não duplicados, mas quadruplicados e quintuplicados para tratar o modelo (homem ou mulher) de forma estritamente profissional, pois sei que uma denúncia já basta para me afastar desse mercado, sendo ela verdadeira ou não. Isso inclusive é meu maior medo! Sempre levo um assistente e peço para que a modelo leve um acompanhante, não para me auxiliarem, mas para serem testemunhas. Até o “você está linda assim” sai com um medo terrível de ser interpretado como uma cantada e não como palavras para conforta-la e acalma-la. Sinto que seu discurso quanto aos homens só incentiva o sexismo, homens só podem fazer umas coisas e mulheres só podem fazer outras. E que tal falar das mulheres que acham que podem pagar pelos seus serviços com sexo? Diversas já vieram com esse papo, algumas chegaram até a me ameaçar falarem que a assediei depois de uma negativa. E aí? É justo ter minha imagem jogada no lixo após anos de estudo, dedicação e centenas de outros ensaios em que tudo se deu bem por causa de uma insatisfeita que não queria pagar? Porque uma certeza eu tenho, serei tachado de estuprador e abusador antes mesmo de poder me defender já que “É também a ferramenta que os fotógrafos homens encontram para continuar dominando o corpo feminino”.
    E após esse desabafo, tudo que tenho a lhe dizer é deixe esse constrangimento besta de lado. Todos nascemos nus e nosso estado natural é o nu. Busque entender o que lhe causa esse constrangimento e use-o a seu favor, mostrando o quão besta ele é. Eu mesmo sempre faço esse exercício quando faço nu, fujo do sensual, o desafio é que o espectador da fotografia veja um corpo desnudo e não pensa em sexo. 🙂

    • Oi, Fellipe.

      As diferentes visões de nu são as referências visuais que eu trouxe pro texto, que têm sido minhas referências nos últimos tempos. Exceto pelo autorretrato que tá aí no meio, se você clicar nas imagens, vai pros ensaios completos dos fotógrafos que foram compartilhados. Coincidentemente, são todos fotógrafos homens.

      Essa visão negativa que eu cito como problemática do machismo na fotografia de nu não acredito estar associada necessariamente a todos os fotógrafos homens. É isso que eu quero dizer ao citar que acho natural o sexo enquanto tema, “ainda que feito por homens usando mulheres como suporte”. Porque não é um problema.

      E também “Não é um discurso feminista na legenda ou o fato de que muitas mulheres pagam ou se humilham para ser fotografadas por caras mal-intencionados que anula o fato de que essa fotografia ser mais uma exploração de mulheres. Ao mesmo tempo em que um trabalho demonstrar sexo explícito não o torna, automaticamente, uma relação de exploração entre artista e retratado”.

      Acho que esse último trecho se encaixa nas situações descritas por você em que mulheres oferecem sexo em troca das fotos. Acredito no teu relato, até porque uma situação de submissão de uma minoria não acontece somente pelo lado dos opressores, mas também pela cultura de opressão que já está enraizada no próprio indivíduo oprimido. Não aparece só na situação das mulheres: é também característica presente no universo de outras minorias sociais, hoje e historicamente. Acho importante pontuar isso, porque muita gente coloca esse tipo de atitude feminina como mais problemática do que a conduta masculina. Como uma espécie de validação da conduta masculina. E esse tipo de posicionamento já é, por si só, mais uma validação da opressão.

      Já sobre o relato ser sobre minha insegurança e você dizer que isso é um constrangimento besta por sexo ser algo natural: vejo isso como uma insensibilidade da sua parte. Talvez seja mais natural pra um homem, mesmo, e talvez porque os homens não estejam no cerne da questão da objetificação do corpo como estão as mulheres.

      Homens são objetificados? Sim. No mesmo nível que mulheres? Não.

      Nesse contexto, a nudez se torna um peso diferente. É aí que a nossa situação enquanto mulher se torna um ponto de partida pra uma construção de visão de mundo mais problemática sobre o nu do que pra uma pessoa que tá de fora. Claro, você pode ser um cara com esse mesmo tipo de problematização por outros motivos. Mas, necessário pontuar, são realidades e vivências bem diferentes e, se você apequena isso, provavelmente é porque não tem a mesma vivência.

      Acho que ler os dois comentários abaixo ajuda a enxergar isso, já que foram feitos por outras mulheres dizendo que passam por situações parecidas.

      E não significa que um olhar fotográfico masculino seja inválido, ou que um feminino tenha necessariamente de ser validado por conta disso. É uma discussão sobre relações de poder. E tão aí minhas referências masculinas pra provar que não acredito nesse sexismo que você me disse pregar.

      Pra finalizar, sobre o que você disse de ficar a cargo da própria modelo buscar referências sobre fotógrafos assediadores: concordo que a gente tem que sair da posição de vítima e saber se proteger e lutar. Mas discordo que a realidade seja esse preto no branco, em que você evita o assédio só por não haver denúncias sobre o fotógrafo em questão. Tenho muitas amigas que foram assediadas por gente famosa, que não tá denunciada por aí. Eu, inclusive. E é aí que a gente entra nesse universo cinza, em que fica muito difícil identificar onde começa e termina o assédio, e quem tá certo ou errado entre intenções e sensações. Acontece.

      Por fim, não se sinta ofendido. Aí vão nossas diferentes visões de nu.

  • Que autorretrato maravilhoso, Naira! <3 Eu amei o texto. Eu fotografei pouquíssimos nus e a maioria não foram como eu queria (em naturalidade), isso acabou me afastando um pouco. Mas com certeza é algo que experimentar mais. Legal saber como foi a tua experiência.

    • Oi, Katarina 🙂 Pelo padrão de comentários, parece que esse assunto do desconforto é algo a ser mais discutido. Adoraria ver seus trabalhos. Se puder, posta aqui pra gente. Obrigada :))

      • Os nus eu não fiz de divulgação por escolha das clientes, mas tem meu trabalho com famílias no instagram.com/katarinaholandafotografia ou katarinaholanda.com 🙂

  • Te admiro demais, mulher. <3